Díli e Jacarta vão criar uma Comissão de Verdade e Amizade, com assessoria internacional, para se "apurar a verdade material" dos crimes perpetrados em 1999 em Timor-Leste, anunciou hoje em Díli o primeiro-ministro Mari Alkatiri.
O chefe do governo timorense, que falava à chegada a Díli após ter participado na cimeira que juntou terça-feira em Bali os presidentes dos dois países, salientou que Timor-Leste e a Indonésia "necessitam de resolver algumas questões pendentes". "A sensação que temos é que o processo de democratização dos dois países está a avançar de forma sólida, mas é necessário que algumas questões pendentes sejam resolvidas. E um dos assuntos pendentes são os crimes de 1999", acrescentou. "O povo de Timor-Leste, que sofreu, sabe o que aconteceu. O povo indonésio precisa de saber a verdade", frisou. "É preciso que os dois governos trabalhem juntos, honestamente, dentro do objectivo de consolidar a amizade entre os dois e procurar a verdade, para que cada um dos povos saiba perfeitamente porque se vai tomar esta ou aquela decisão", adiantou. Mari Alkatiri referia-se aos crimes contra a humanidade perpetrados em 1999, durante o processo de organização e de realização da consulta popular que resultou na separação de Timor-Leste do ocupante indonésio, e que se saldou em cerca de 1.500 mortos, na destruição de mais de 75 por cento das infra-estruturas existentes em solo leste-timorense e no êxodo forçado de 250 mil pessoas para a parte indonésia da ilha de Timor. A onda de violência e o banho de sangue que caracterizaram esse período foi levado a cabo pelas forças armadas e de segurança do ocupante e pelas milícias pró-indonésias. Para o chefe do governo timorense decidiu-se criar uma Comissão de Verdade e Amizade para se "apurar a verdade material dos factos". A proposta será agora submetida pelos ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países ao secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que será mantido regularmente informado sobre os trabalhos, garantiu Mari Alkatiri. Quanto ao prazo temporal desta estrutura Mari Alkatiri preferiu não se comprometer com datas, recordando que um organismo similar, de natureza timorense, a Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação, ainda não concluiu o trabalho a que se propôs, pelo que a instituição a criar, "levará naturalmente algum tempo para desenvolver os seus trabalhos". Relativamente aos custos financeiros, Mari Alkatiri acredita que a comunidade internacional não deixará de apoiar o seu funcionamento. Outras questões bilaterais pendentes passam pela resolução definitiva do traçado das fronteiras, terrestres e marítimas, comuns, da situação dos cidadãos timorenses que continuam em solo indonésio, designadamente em Timor Ocidental, e os bens reclamados por cidadãos indonésios, deixados em Timor-Leste.
In Lusa
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